15.12.16

QUEM TEM MEDO DO BAIXO CLERO NO SENADO E NA CÂMARA DOS DEPUTADOS

JOSÉ CARLOS DE ASSIS -


Sob o trauma da votação vergonhosa da admissão do impeachment de Dilma na Câmara dos Deputados, e convencidos de que tudo não passava de uma trama urdida por Eduardo Cunha atraindo com sacos de dinheiro vivo a maioria no plenário, acolhemos sem muito espírito crítico que dois terços, no mínimo, do Parlamento estavam comprados. Isso foi reforçado agora com as votações a toque de caixa de projetos da pauta-bomba de Temer que são aprovados na Câmara com a velocidade de um foguete, “na calada da noite”.

Tudo isso é falso. Ou verdadeiro apenas pela metade. Cunha comprou muita gente na Câmara, mas não todos. Fala-se em cerca de 80. Não sei se tinha caixa ou influência para isso. De qualquer modo, era um número insuficiente para garantir a aprovação do impeachment e, agora, para aprovação de emendas constitucionais. Na época do impeachment, conversei com vários parlamentares que se moveram contra Dilma não por terem sido comprados por Cunha, mas simplesmente porque estavam indignados com a incompetência do governo Dilma.

É claro que eles estavam equivocados: incompetência do governo não forma base para impeachment. Entretanto, grande parte da população tinha o mesmo sentimento e pressionava nas bases seus representantes para votar contra a Presidenta. A própria situação da época tinha enorme dificuldade semântica para se posicionar. Um parlamentar incorruptível como o senador Roberto Requião, crítico mordaz da política econômica de Dilma, tinha de fazer enormes contorções para justificar sua posição contra o impeachment.

Na Câmara, procurei na época o jovem deputado Leonardo Quintão, vice líder do PMDB, sugerindo-lhe propor uma iniciativa de discussão de um grande acordo suprapartidário para enfrentar a crise. Fiz-lhe uma carta que está na internet. A despeito de sermos amigos e conterrâneos, ele descartou a iniciativa tendo em vista a pressão de suas bases contra a Presidenta Dilma. Leonardo é de uma família rica, evangélica. Também ele incorruptível. Sem ter as convicções de Requião contra o impeachment, votou contra a Presidenta.

A lista da Odebrecht é surpreendente não por ter muitos, mas por ter relativamente poucos parlamentares em 500, todos das cúpulas, não do Baixo Clero. Considerando Senado e Câmara, ficaram de fora os que podemos concluir serem honestos. É por aí que pode sair um acordo de regeneração institucional. Senado e Câmara terão inexoravelmente de renovar, em regime de urgência, suas direções, e depois da limpeza da Lava Jato não sobrarão muitos corruptos de carteirinha para ocupar as cadeiras. Se surgirem, o povo não os aceitará.

É no Baixo Clero, portanto, que se encontra a esperança de uma nova superestrutura política no Brasil. Não devemos ter medo disso. Os que votaram contra Dilma se revelaram equivocados do ponto de vista constitucional, porque não havia crime de responsabilidade, mas estavam fundamentalmente certos no que dizia respeito aos sentimentos de seus eleitores em relação ao “conjunto da obra” de um governo que se mostrou incompetente. Agora é hora do grande acordo, não para acabar com a Lava Jato, mas para salvar o país.

Para isso, a primeira providência é apagar o farol de ré e focar para frente, no farol alto. O pessoal do PT e seus aliados tem que tomar consciência de que o tempo do impeachment passou. Mesmo aquilo que poderia ter sabor de vingança, como o impeachment de Temer, não será necessário. A avalanche da Lava Jato arrasta o presidente para o fundo do poço de onde ele não terá saída. Em suma, para o bem do povo, os cacos do sistema político, em sua parte honesta no Baixo Claro, devem ser reconstruídos numa nova estrutura honesta.

Para facilitar o acordo, que deve encaminhar imediatamente uma solução para a crise econômica, os parlamentares mais responsáveis, dentro e fora de partidos, estão sob o desafio de encontrar um ponto comum num plano de governo de emergência, conforme eu tenho defendido nos últimos dias. Naturalmente, é importante encontrar também um nome de consenso para a Presidência, absolutamente incorruptível, e que tenha mão forte para disciplinar as relações entre os poderes que está totalmente fragmentada atualmente.

A solução da crise através do Baixo Clero tem óbvias dificuldades operacionais. Sempre é mais fácil seguir o caminho dos acordos de cúpula que depois são apenas referendados embaixo. Bom, disso estaremos livres graças aos bons ofícios da Lava Jato que varreu de cena os homens da cúpula. Os parlamentares “comuns” do Senado e da Câmara terão de conciliar suas afinidades mediante intensa negociação em seu próprio nível, sob a fortíssima pressão de uma Nação que espera deles um gesto imediato de coragem e de responsabilidade.