19.2.17

CIRCO DA LAVA JATO VAI ESBARRAR NA ABSOLUTA FALTA DE PÃO

JOSÉ CARLOS DE ASSIS -


Panem et circenses, pão e circo. Com isso se supõe que a classe dominante romana controlava a plebe. No Brasil atual controla-se a plebe com muito menos. Não é necessário o pão, basta o circo. A televisão equilibra muito bem seu noticiário de forma a esconder ao máximo a falta de pão, ou mais especificamente a falta do emprego que garante o pão, para dar o máximo espaço a iniciativas tópicas de sucesso individual no assim chamado empreendedorismo, cujo sucesso, objetivamente, remete apenas a um punhado de pessoas. Daí a máxima importância do circo, o entretenimento oferecido a todos pela própria tevê.

A prevalência do circo televiso direcionado para a plebe é diretamente proporcional ao tamanho da crise. Do circo faz parte o noticiário exagerado sobre a corrupção, de preferência de forma escandalosa, para distrair a atenção dos problemas reais da vida. Para alguém que perdeu o emprego e não tem fonte segura de renda, ver o apresentador de tevê, com esgares indignados, “denunciar” um grande escândalo de corrupção funciona como compensação psicológica para a sua própria situação desesperada. Ele ou ela se sente de alguma forma compensado pela prisão de pessoas ricas, não importa as razões dessa prisão.

O espetáculo armado pelo juiz Sérgio Moro em torno das investigações da Lava Jato está diretamente relacionado com o objetivo de mobilizar a plebe para esquecer suas mazelas cotidianas. É um estratégia deliberada, na medida em que o juiz, confessadamente, copiou-a das investigações da máfia italiana. Na Itália, enquanto o juízo excepcional durou, não havia outro assunto nas tevês italianas. Um dia acabou, pois a vida continua, e ninguém vive eternamente de combate à corrupção. E quando acabou, os italianos elegeram um empresário bufão como primeiro ministro, Berlusconi, que deixou a Itália politicamente em frangalhos.

O circo brasileiro apresentado diariamente na tevê é a Lava Jato. Algum dia isso há de acabar: não podemos viver eternamente ligados na televisão vendo passar uma galeria de corruptos, e sem considerar tudo o mais, sobretudo na economia que submerge no terceiro ano da depressão e num desemprego que caminha celeremente para 15 milhões de trabalhadores. Isso está acontecendo no mundo real, não no mundo da tevê. A televisão tem limites, em última instância os limites da realidade. Em algum momento a plebe se insurgirá com a manipulação televisiva e com a própria Lava Jata, que lhe dá circo, mas não dá pão.

É claro que, para evitar um desfecho melancólico para uma investigação que custou tanto dinheiro e tanta energia, é fundamental uma desativação controlada. Como primeiro passo é necessário acabar com a força-tarefa, um centro de arbitrariedades e de vaidades, que deve ser substituído pelos instrumentos comuns da investigação da Polícia Federal e do Ministério Público. Por outro lado, é preciso acabar com essa história bufa de que tudo que diz respeito a algum controle externo significa querer acabar com a Lava Jato. Finalmente, é preciso que o Supremo libere logo a lista de denúncias homologadas da Odebrecht. Sem isso, não haverá sinal de honestidade na investigação. E não haverá como acabar com o circo.