7.3.17

A RAZÃO E O MONSTRO DA RECESSÃO

HÉLIO DUQUE -


A opinião pública, quando manipulada, alimenta-se no conformismo em relação aos grandes problemas da nação. Acredita nas soluções mágicas e joga o futuro na fé e em governantes ilusionistas. Aí mora o perigo e leva a sociedade a mergulhar em cenário populista, seja de esquerda ou de direita. O professor José Eduardo Faria, titular da Faculdade de Direito da USP (Universidade de São Paulo), analisou em artigo que o pessimismo deve ser encarado como um dever civil, pela razão direta de a democracia ser um instrumento de vigilância, de crítica e protesto, quando a corrupção invade a esfera pública levando à degeneração ética. A operação Lava Jato, que atravessou as fronteiras brasileiras, transformando-se numa ação multinacional contra a corrupção, é um acontecimento a demonstrar como é possível perseguir a busca da regeneração de valores.

Rigoroso nas suas análises de conjuntura, o professor Faria recorreu a situação de crise institucional vivida há quatro décadas na Itália. Foi quando o notável pensador e político Norberto Bobbio afirmou: “Deixo para os fanáticos, aqueles que desejam a catástrofe, e para os insensatos, aqueles que pensam que no fim tudo se acomoda, o prazer de serem otimistas. O pessimismo é um dever civil porque só um pessimismo da razão pode despertar aqueles que, de um lado ou de outro, mostram que ainda não se deram conta de que o sono da razão gera monstros”.

Transplantando para o Brasil, o pensamento de Norberto Bobbio, se traduz no monstro da maior recessão econômica da história republicana. A catástrofe foi construída ao longo de anos, com a omissão da maioria da sociedade, em todos os níveis. Cultivou otimismo marqueteiro sem se dar conta do que apontava a realidade. A ilha da fantasia, sustentada no voluntarismo ideológico e pelo aparelhamento da administração pública, marginalizava a meritocracia, ampliando os poderes de um estado perdulário onde “nós” e “eles” foi erigida à filosofia de governabilidade. O corporativismo empresarial, sindicais e afins adonou-se do poder surfando no privilégio e na onda de notícias plastificadas, enganadoras da opinião pública.

Ao final de uma década o cenário da realidade eclodiu como um “tsunami asiático”. Recessão econômica de três anos; déficit público em nível recorde; dívida pública multiplicada; taxa de juros em padrão de recorde mundial; inflação mais de que o dobro da meta primária; carga tributaria crescendo e sugando a produção; além do desemprego atingindo mais de doze milhões de trabalhadores. A ilusória popularidade, apoiada pela maioria da sociedade deixou como herança uma economia em frangalho. O que fazer para retirar o País dessa realidade dolorosa?

É despertar do sono da razão e entender que o atual governo, também responsável pela situação de caos econômico, por integrar pela sua maioria a base de sustentação dos governos Lula e Dilma, passou a enxergar a realidade. Impopular e desaprovado pela maioria da população, vem surpreendentemente propondo reformas básicas para retirar o Brasil da UTI. Se pelo lado político vem enfrentando cenário negativo, com nefastos personagens do passado, na área econômica promoveu mudanças estruturais positivas com equipe econômica competente. Destacadamente no Banco Central, na Petrobrás, no BNDES, no Ministério da Fazenda e áreas afins. A aprovação do teto dos gastos públicos, as propostas de reformas da previdência, do setor tributário, na área trabalhista, herdeira da “Carta del Lavoro” de Mussolini e mesmo alteração limitada na vida partidária, são propostas positivas.

Na economia pode-se afirmar que o fundo do poço da crise foi atingido. Mas exigirá tempo para recolocar a água em padrão aceitável para retomada do crescimento econômico. Felizmente a reação já começa a ser sentida superando o momento de desespero. A estabilização com evolução dos indicadores econômicos, nos últimos trimestres, demonstra que a transição se iniciou. O caminho ainda será longo para a retomada de um ciclo econômico de expansão. O desemprego continuará elevado, mas a ancoragem para o futuro vem sendo buscada e, gradativamente, o emprego voltará a crescer. Nesse cenário o governo, convivendo com a banda marginal da politica, paga o preço da impopularidade. Não deve temê-la: precisa fazer o que deve ser feito. A prioridade deve ser a retomada do crescimento e aprofundamento das reformas estruturais.

*Hélio Duque é doutor em Ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Foi Deputado Federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.