30.3.17

TEM MACUMBA NO FUNK?

LUIZ ANTONIO SIMAS -


Estou longe de ser um conhecedor do tema, mas tenho minhas desconfianças e acho mesmo que o funk carioca tem a ver com a fé brasileira e nossos tambores. Pelo pouco que ando fuçando nos últimos anos, já que tudo que é cultura carioca me interessa, sei que o gênero musical começa a se delinear na década de 1960 nos EUA, a partir de músicos negros dispostos a cruzar referências do soul, do jazz e do rhythm and blues e que, de forma resumida, se caracteriza pelo ritmo de batidas repetitivas sincopado, de caráter altamente percussivo e dançante.

O Rio de Janeiro, todavia, criou um funk distinto daquele que veio se estruturando nos EUA, ainda que beba na fonte dele. A turma do funk ensina isso e eu, que disso sei quase nada, confio.

Misturando um caldeirão sonoro de referências da black music, com letras que tematizam os diversos aspectos do cotidiano nas favelas e periferias cariocas, o funk do Rio de Janeiro traz também, em suas vertentes, e ao menos para os meus ouvidos e seríssimas desconfianças, as influências de batuques cariocas oriundos das rodas de samba e dos atabaques sagrados das umbandas e candomblés.

Pela simples percepção forjada nos terreiros, eu juro - e conheço gente bamba que confirma - que sinto o alujá de Xangô, ritmo rápido e contínuo tocado para o orixá do fogo, e o toque de congo, característico das casas de candomblé de Angola e da umbanda, potencialmente diluídos no caldeirão sonoro do tamborzão funkeiro, misturados às batidas repetitivas do rap, do freestyle e do miamibass dos sons pretos norte-americanos.

É como se a memória sonora da cidade, profundamente marcada pelos sons saídos da África e aqui redefinidos, gritasse a ancestralidade nos bailes que balançam o Rio de Janeiro e os corpos cariocas.

Fiquem aí com um toque de Congo. Dá um funkão da porra. Daí saiu tanta coisa. No fundo, os tambores chamam e os corpos respondem: é a enzima das praias de lá catalisando tudo que ressoa nas nossas areias. A cultura carioca, fundamentada na gramática dos tambores - mesmo que relute (e por vezes lute contra) em se enxergar assim - é uma cultura de macumba.

*Postado no facebook