26.4.17

JORNALISMO BRASILEIRO PERDE O GIGANTE CARLOS CHAGAS

Por CARLOS NEWTON -

Carlos Chagas recusou o convite de Costa e Silva, mas nós o convencemos a aceitar…

Chagas, ao lançar  um de seus diversos livros sobre política / Reprodução.
O jornalista Carlos Chagas morreu aos 79 anos, nesta quarta-feira (26/4), em Brasília. Advogado e ex-professor da Universidade de Brasília, Chagas é o pai de Helena Chagas, ex-ministra-chefe da Secretaria de Comunicação Social no governo Dilma Rousseff, e da promotora Cláudia Chagas, ex- chefe da Secretaria-Geral do Ministério da Justiça. Helena avisou em sua página no Facebook sobre o falecimento. “Amigos, meu pai, jornalista Carlos Chagas, acaba de falecer. Era a melhor pessoa que conheci nesse mundo”, escreveu em um post.

Nascido em Três Pontas, Minas Gerais, e morador de Brasília, ele iria completar 80 anos no próximo dia 20 de maio. Era formado em Direito pela PUC-RJ e foi membro do Ministério Público do Rio de Janeiro. Depois, tornou-se um dos nomes mais expressivos do jornalismo brasileiro e foi professor de Ética da Faculdade de Jornalismo da UnB durante 25 anos. Ao longo de sua trajetória, ele passou pelo Globo, Estadão, Manchete, SBT, RedeTV, CNT, Tribuna da Imprensa, entre outros veículos de comunicação.

CARREIRA BRILHANTE – Ainda muito jovem, Carlos Chagas se afastou do Ministério Público para dedicar-se exclusivamente ao jornalismo, assinando a mais importante coluna Política de O Globo. Depois, mudou-se para Brasília e foi dirigir a sucursal do Estado de S. Paulo. No período da ditadura militar, Carlos Chagas foi assessor de imprensa da Pre­si­dência da República no governo do general Costa e Silva, e dessa experiência nasceu a série de reportagens “113 Dias de Angústia – Impedimento e Morte de Costa e Silva”, que lhe garantiu o Prêmio Esso a Chagas e se tornou seu livro de maior sucesso.

Escreveu muitas outras obras, como “A Ditadura Militar e os Golpes Dentro do Golpe: 1964-1969”, em que, baseado nas suas próprias memórias e nos relatos de outros jornalistas, Carlos Chagas conta os bastidores do golpe de 1964, que tirou o presidente João Gou­lart e pôs o general Castello Branco no poder.

“O Brasil sem Retoque: 1808 – 1964”, “Carlos Castelo Branco: o Jornalista do Brasil”, “Resistir é Preciso” e “A Ditadura Militare e a Longa Noite dos Generais” são outras obras de Chagas.

COSTA E SILVA CONVIDA – Agora, abro parênteses para relatar minha amizade pessoal com Carlos Chagas, a quem conheci em 1966, na Redação de O Globo. Quando o general Costa e Silva foi escolhido sucessor de Castelo Branco, fez uma excursão ao exterior (era praxe, na época, e Washington tornava-se escala obrigatória). O Globo escalou Chagas para acompanhar o general, junto com repórteres dos principais jornais.

Na viagem, Costa e Silva ficou impressionado com Chagas, que era muito culto, educado e de temperamento firme, tinha convicção em tudo o que dizia. De volta ao Brasil, convidou-o para assumir a Secretaria de Imprensa do Planalto. Chagas recusou, o general pediu-lhe que refletisse melhor. Encerrada a conversa, o jornalista então rumou para a Redação de O Globo, onde escrevia sua coluna diária, no espaço hoje ocupado por nosso amigo Merval Pereira.

INSISTIMOS MUITO – Na época, a Editoria de Política de O Globo tinha apenas quatro integrantes – o editor Antonio Vianna de Lima, um ícone do jornalismo; o subeditor Jair Rebelo Horta, que havia assessorado Juscelino Kubitschek durante o mandato dele; Chagas era o colunista e eu trabalhava como redator. Ao chegar à Redação, Chagas nos chamou e relatou o convite, dizendo que não aceitara.

Vianna então pediu ao subeditor Jair Rebelo Horta que fechasse as páginas de política e descemos para o bar da esquina, onde poderíamos conversar com mais liberdade.

CHAGAS NÃO ACEITAVA – Carlos Chagas sempre foi um intelectual progressista, era totalmente contrário ao regime militar, não queria aceitar, de jeito algum. Argumentava que os militares estavam se excedendo, todos conhecíamos os relatos de torturas etc. e tal.

A conversa foi rolando, já tínhamos tomado muitas caipirinhas e Vianna então disse a Chagas que era importante aceitar o convite, porque estaria próximo ao presidente e poderia influir para que houvesse uma distensão e as torturas cessassem. Aproveitei o embalo e contei o conselho que eu recebera de José Fernandes do Rego, jornalista da Ultima Hora, muito amigo de Sebastião e Ceci Nery, e que fora barbaramente torturado, perdera os dentes frontais. Eu estava insatisfeito com a linha política de O Globo e ia pedir demissão, mas José Rego me convenceu a ficar e aproveitar as brechas que aparecessem.

CHAGAS ENFIM ACEITA – Bem, Vianna e eu insistimos muito, até que convencemos Chagas a aceitar. Subimos para a Redação, tínhamos bebido para valer e contamos ao editor da Primeira Página, Armindo Blanco, que Chagas fora convidado e decidiu aceitar. Blanco não gostou, subiu o tom da conversa, Chagas se aborreceu e quase saíram na porrada ao lado da sala de Roberto Marinho, que felizmente já tinha ido para casa.

Por causa dessa nossa insistência, desde aquela época Chagas passou a receber críticas por ter aceitado trabalhar com Costa e Silva. Tantos anos depois, me arrependo de ter ajudado a convencê-lo. Chagas era um homem muito correto, jamais foi submisso aos militares e estava com a razão. Não deveria ter aceitado trabalhar com Costa e Silva, que assumira presidente mas não mandava nada, tinha sido dominado pelo Sistema, que era com chamávamos o grupo de militares e civis que comandavam no país, entre os quais o próprio Roberto Marinho era um dos destaques e foi quem mais se beneficiou  no tempo da ditadura. Mas isso nós só íamos saber depois. E já era tarde demais.

* Fonte: blog Tribuna da Internet