21.9.17

PEQUENINO

LUIZ ANTONIO SIMAS -


O que alguns neopentecostais que defenestram macumbeiros e andaram me xingando numa tal de Folha Gospel jamais vão entender é que sou cristão também. Como não seria, vindo de onde vim e vivendo onde vivo? Sou cristão e lanço sobre Jesus Cristo um olhar carinhosamente humano.

Jesus Cristo transformou água em vinho. Nunca transformou vinho em água. Fez isso, não custa lembrar, para não acabar com a festança da rapaziada. Disse também, naquele jantar com o fariseu escroto, que o mal nunca é o que entra, mas o que sai da boca do homem, quebrando assim todos os tabus alimentares e pedindo cuidado com as palavras.

O problema é que tem cristão que insiste em transformar o barba em um chatonildo, inimigo dos fuzuês, dos birinaites e das alegrias. Cristo (o meu) era um farrista do bem, não era um carola enxabido ou um pregador insulso. É por isso que me amarro no carpinteiro de Nazaré - que me parece ter sido filho de Ogum (aquela porrada que ele enfia nos vendilhões do templo é clássica reação dos filhos do orixá guerreiro).

É por isso, ainda, que sou do cristianismo popular: bebo e compartilho da boa mesa com os meus amigos e camaradas e com qualquer um que seja gente de bem. E não sento em mesa de bar - um templo - com fariseus que queiram ditar regras e impor grosseiramente suas verdades.

Costumo, por conta dessas coisas, me comover profundamente com as festas cristãs: o Círio de Nazaré, em Belém do Pará, pela vitalidade que preserva; a Festa da Penha, no Rio de Janeiro, pelo que representou para o povo da cidade; e o ciclo da Paixão, barroco de doer. Festas e recolhimentos em que os cantos, louvores, silêncios, comidas, leilões de prendas, namoros, cheiros e bordados, falam de afetos celebrados que permitem a subversão - pelo rito - da miudeza provisória da vida.

O meu Jesus Cristo, afinal, é o jesuscristinho dos presépios mais precários, das bandinhas de pastoris e lapinhas do Nordeste, dos enfeites formosos das moças dos cordões azul e encarnado e das folias que alumbram de brasilidades os fuzuês que, no mês de janeiro, homenageiam - entre cachaças, cafés e bolos de fubá gentilmente servidos pelos donos da casa - os Reis do Oriente.

Ele, o Cristo dos meus delírios, se sentiria mais a vontade em um botequim de esquina do que na Basílica de São Pedro ou no Templo de Salomão. Se manifesta mais nas mãos calejadas dos devotos do Círio que nas batinas sacerdotais e ternos bem cortados dos condutores do bonde da aleluia. Deve respeito e é respeitado por Tupã, Zambiapongo e Olorum.

Meu Cristo, enfim, é um pequeno; pedrinha miudinha. Joga na várzea, bebe nos subúrbios, rala nas fábricas e, quando o sol vai quebrando lá pro fim do mundo pra noite chegar, descansa feito João Valentão e adormece como menino brasileiro.

A vista não pode alcançar as belezuras de suas miudezas.

*Via Facebook.