1.10.17

BRASIL 2017, ISSO MESMO...

LUIZ ANTONIO SIMAS -


O poeta Fabião das Queimadas, analfabeto, rabequeiro e cantador, imaginou, na hora da morte, assistir aos vaqueiros Miguel e Antonio Rodrigues perseguirem o Manco, touro mão-de-pau, valente e valoroso gado:

Corre a Serra Joana Gomes
galope desesperado:
um touro se defendendo,
homens querendo humilhá-lo,
um touro com sua vida,
os homens em seus cavalos.

E Fabião viu os vaqueiros, cumprindo a ordem de Seu Sabino, preparando ferrões farpados e algemas de baraúna para prender o touro bravo. E viu quando o bicho, manquejando ensanguentado, com as ancas rasgadas pelos ferrões, desafiou quem lhe perseguia:

A Serra se despenhava
nas asas de seus penhascos
e a respiração fogosa
dos dois fogosos cavalos
já requeimava, de perto,
as ancas do Manco macho
quando ele, vendo a desonra,
tentando subjugá-lo,
mancando da mão preada
subiu num rochedo pardo.

E o touro bravo era o Caneca, Teresa, Delmiro, Sepé, Pedro Ivo, Nise, João Candido, Vovó, Heitor, Mané, Menininha, Joaquim Maria...

Num grito todos pararam,
pelo horror paralisados,
pois sempre, ao rebanho, espanta
que um touro do nosso gado
às teias da fama-negra
prefira o gume do fado.
E mal seus perseguidores
esbarravam seus cavalos,
viram o Manco selvagem
saltar do rochedo pardo.

E Fabião das Queimadas percebeu, nos silêncios que precedem o bote da Onça, que o touro bravo era ele, o poeta das vaquejadas, o escravizado por Zé Ferreira, o homem que comprou rimando a liberdade. E Fabião cantou para se despedir do mundo, como o Manco no rochedo pardo em seu voo derradeiro:

-Adeus, Lagoa dos Velhos!
Adeus, vazante do gado!
Adeus, Serra Joana Gomes
e cacimba do Salgado!
Assim vai-se o touro manco,
morto mas não desonrado!

E na hora das incelenças ouviu-se, no lamuriar das carpideiras, um aboio longo, comprido, anunciando que o poeta Fabião das Queimadas, cantor do povo, rabequeiro de feira, tinha finalmente se encontrado com a Onça e se misturado com o touro bravo: o touro virado em terra e lama de rio; bicho imenso de olhar incendiado pela solidão e pela chama do misterio das almas valentes que retornarão dançando:

Silêncio. A Serra calou-se
no poente ensanguentado.
Calou-se a voz dos aboios,
cessou o troar dos cascos.
E agora, só no silêncio
desse Sertão assombrado,
o Touro sem sua vida,
os homens em seus cavalos.

NotaFabião Hermegildo Ferreira da Rocha, o Fabião das Queimadas, morreu ao oitenta anos de idade em Santa Cruz, Rio Grande do Norte, no ano de 1928. Poeta maior da sua gente, deixou obra assombrosa sobre vaquejadas e romances de gado. A Morte do Touro Mão-de-Pau - cujos versos cito no texto - é seu canto mais famoso, tendo sido, inclusive, recriado por Ariano Suassuna. (via Facebook)