3.10.17

ELEITOR TAMBÉM É CULPADO

HÉLIO DUQUE -


As pesquisas que vêm sendo divulgadas nessa antevéspera da eleição presidencial de 2018 demonstram que escrúpulo, ética, caráter, honestidade, integridade e decência têm pouco valor para muitos brasileiros. Vivem em um mundo onde as pessoas pensam no seu próprio egoísmo, negando a capacidade de se somarem aos grandes valores democráticos. É um caminho seguro para enveredar por rota autodestrutiva, ignorando a realidade, onde o clientelismo e a corrupção estatal e privada transformaram as eleições, os governos e os partidos políticos em instrumentos de enriquecimento dos grupos oligárquicos e corporativos detentores influentes no poder.

Em 1898, nos primeiros anos da República, o escritor e poeta Olavo Bilac já alertava que a mentira na política teria vida longa. Afirmava: “É preciso antes de tudo ter força de saber mentir e transigir. Diante do eleitorado, que poderia eu dizer? A verdade? Mas o eleitorado, aceso em justa cólera, me correria a pedradas”. No Brasil, após a redemocratização de 1985, o diagnostico do ilustre brasileiro tem grande atualidade. Nas eleições brasileiras, o embuste refletido nos programas hollywoodianos, produzido pelos marqueteiros e o dinheiro abundante anestesiando o eleitorado gerou a realidade da corrupção sistêmica.

Quase um século depois de Bilac, o advogado Joaquim Falcão, diretor da Faculdade de Direito da Fundação Getúlio Vargas, no Rio, radiografa: “Existe quase um consenso sobre o culpado pela corrupção, pela ineficiência da administração pública, pelos déficits, pelos maus serviços públicos, pela violência. O culpado é o governo. Qualquer que seja. São os políticos. Alguns podem até ser. Mas apenas eles? Afinal, quem os coloca lá são os eleitores. Podem os eleitores lavar as mãos?”

A proliferação das organizações corruptas na vida política nacional não tem, pelo visto, um único responsável. A sociedade através segmentos das elites política, empresariais, intelectuais, religiosas e setores populares são agentes ativos no enfraquecimento do Estado democrático. Fato agravado nesse cenário de atraso, pela urgência de um novo tipo de populismo. É o neopopulismo da fé, renegando todos os fundamentos iluministas, em nome da religião. Seitas criam partidos políticos, inundando a vida pública, com inegável êxito. E mais: uma elite burocrática e corporativa, nos três poderes, garantidor dos interesses dos servidores do Estado tem valor absoluto na consolidação dos seus privilégios.

Em uma sociedade claramente despolitizada, o populismo emerge alicerçado na demagogia. Ideologicamente pode ser de direito ou de esquerda, oferecendo sempre soluções fáceis para problemas complexos. Disso decorre ser fundamental eleger sempre um inimigo para afirmar-se dialeticamente como valente defensor do povo e dos excluídos. Populismo e demagogia são irmãos siameses. O demagogo populista não tem adversários nos embates políticos, tem inimigos que devem ser abatidos. A grande vítima é o Estado democrático.

É oportuno relembrar o estadista inglês Winston Churchill, intransigente defensor da democracia, celebrizando que é a melhor forma de governo, apesar das imperfeições. Pouco conhecida e divulgada é a sua observação de que o melhor argumento contra a democracia é uma conversa de cinco minutos com um eleitor normal. O que levou o escritor português João Pereira Coutinho a sintetizar: “Convém não canonizar o eleitor como poço de sabedoria ou tolerância.”

* Hélio Duque é doutor em Ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Foi Deputado Federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.