26.10.17

MACUMBEIROS E MACONHEIROS

ANDRÉ BARROS -


As religiões de matriz africana vêm sofrendo ataques violentos de grupos neopentecostais aliados ao tráfico de drogas. Terreiros de umbanda e candomblé estão sendo violados e seus praticantes vêm sendo ostensivamente perseguidos. Essa perseguição tem suas raízes na monarquia e na escravidão, pois a religião católica apostólica romana era a oficial do Estado, de modo que todas as outras eram proibidas. Embora a intolerância já tenha se manifestado de diferentes maneiras, hoje, ela acontece através de uma aliança entre setores neopentecostais e do tráfico de drogas. Essa relação surgiu em razão do trabalho realizado há décadas pelas igrejas neopentecostais nos presídios, com condenados por tráfico de drogas convertidos e varejistas do mercado ilegal. Se prestarmos atenção, trata-se de um casamento perfeito, pois a combinação é ideal para a lavagem de dinheiro.

Muitas igrejas neopentecostais utilizaram o discurso de que as religiões afro-brasileiras são suas principais inimigas, coisa “do demônio”, para crescer. Basta ligar qualquer canal de rádio e televisão, que rapidamente vamos ouvir pregações contra a umbanda e o candomblé, historicamente chamadas, de forma racista, de “macumba”, enquanto seus religiosos são tratados pejorativamente como “macumbeiros”. Diariamente, poderosos e numerosos meios de comunicação veiculam a ideia de que se deve amar a Deus e odiar o “diabo”. Costumam dizer que os “macumbeiros” estão “incorporados pelo demônio”, de modo que inúmeros templos neopentecostais realizam as chamadas “sessões de descarrego” para supostamente libertar uma pessoa que estaria “amarrada”.

Nos morros do Rio de Janeiro, cujos moradores são negros em sua grande maioria, igrejas religiosas neopentecostais vêm proliferando de forma avassaladora, enquanto vários terreiros são violados e fechados. Há relatos de moradores que não podem estender roupa branca em seus varais, pelo simples fato de que é uma cor muito comum das vestimentas de matriz africana.

A palavra macumbeiro lembra maconheiro e a perseguição sofrida pelas religiões de matriz africana possui a mesma raiz racista da perseguição à maconha. Ao mesmo tempo em que os negros foram barbaramente escravizados e degredados da África para o Brasil, sua cultura sempre foi proibida, criminalizada e perseguida: exemplos disso residem na perseguição à capoeira, ao samba, ao funk…

Após a abolição da escravidão, em 1888, enquanto um aparelho de repressão da elite contra o pobre, o Estado elegeu, como principal estratégia para perseguir os negros, a criminalização de condutas e costumes. Ainda antes da primeira Constituição da República, no ano anterior, entrou em vigor o Código Penal, o qual estabelecia uma série de crimes e contravenções voltados para prender e matar negros e pobres. Para confirmar toda essa situação, basta saber que 80 % das mortes em ações policiais e 90 % das prisões no Estado do Rio de Janeiro são de negros e pobres.

A maconha situa-se nesse contexto histórico e sua criminalização possui a mesma origem racista, pois foram os negros que trouxeram o hábito de fumar maconha para o Brasil. O Rio de Janeiro foi o primeiro lugar do mundo a criminalizar a maconha, no § 7º da lei de Posturas do Município de 1830. Sua sanção era evidentemente racista, já que penalizava com 3 dias de cadeia escravos que comprassem maconha.  Por todos esses motivos, a legalização da maconha não interessa aos brancos poderes. A legalização da erva faz parte da luta contra o racismo no Brasil.