27.10.17

"QUEM SEMEIA O CAOS COLHE DESORDEM"

Por LUIZ CARLOS PRESTES FILHO -


A secretária municipal de fazenda do Rio de Janeiro, Maria Eduarda Gouvêa, em reunião com os presidentes das escolas de samba do Grupo Especial, comparou o Carnaval ao Rock in Rio, demonstrando desconhecimento de que a festa popular é de utilidade pública. Reproduzindo a visão de dois inimigos declarados do Carnaval Carioca: o secretário de municipal de educação, Cesar Benjamim, e o prefeito, Marcelo Crivella.

Através dos desfiles, que contam com subvenção publica desde 1935, grupos sociais excluídos comemoram um ano de trabalho em suas quadras: cursos profissionalizantes; atividades esportivas em vilas olímpicas; pré-vestibulares; campanhas de saúde pública; eventos culturais; reuniões comunitárias e familiares (casamentos, festas de 15 anos, batizados e até mesmo velórios). Algumas escolas de samba são mantenedoras de creches e educandários atendendo a milhares de crianças com educação gratuita. Nos barracões ao longo do ano o trabalho é voltado tanto para a produção e desmontagem de carros alegóricos, como para a confecção de fantasias e adereços. São milhares de costureiras, bordadeiras, marceneiros, serralheiros e escultores, entre muitos outros profissionais qualificados.

Virar as costas para esta "Engenharia Social do Carnaval" (conceito criado pelo  economista Carlos Lessa) é abandonar definitivamente aqueles que estão abandonados de políticas públicas. Comunidades onde o executivo municipal, estadual e federal nunca entrou (muito menos o Rock in Rio) e não entrará nos próximos anos.

Interessante, neste contexto, constatar que o projeto de captação de recursos privados, apresentado pela Empresa Municipal de Turismo (Riotur) não obteve os resultados esperados. Quem sabe o empresariado não desejou aliar a imagem de suas marcas ao encaminhamento de políticas públicas voltadas contra populações marginalizadas de toda periferia do Rio que hoje se veem impedidas de continuar plenamente com o seu trabalho e a sua festa.

Importante destacar que estamos a quatro meses do Carnaval do Rio de Janeiro e que a ameaça não é somente para as escolas do Grupo Especial. Dezenas escolas de samba do grupo de acesso que desfilam na estrada Intendente Magalhães, em Madureira, também estão no meio desta crise junto com todos blocos e bandas.

Pior, até o atual momento não se sabe qual será o plano para o trânsito, higiene sanitária (banheiros químicos), atendimento médico  e segurança pública. Em junho de 2016, todo o planejamento para o carnaval de 2017 já tinha sido delineado. Hoje nada se sabe como será o carnaval de 2018.

A demagógica imagem do atual prefeito ao lado de vítimas dos graves acidentes que ocorreram no Sambódromo este ano foi possível por conta da eficiência do planejamento da gestão anterior, que disponibilizou ambulâncias e postos de atendimentos emergenciais por toda cidade. Crivella cantou um samba em playback. Aproveitou a desgraça alheia para se apresentar como eficiente e caridoso. O atual prefeito, em 2018, terá que cantar com a própria voz: voz da desordem urbana e do caos administrativo.

* Texto exclusivo para a TRIBUNA DA IMPRENSA Sindical / Luiz Carlos Prestes Filho é autor do livro "Cadeia Produtiva da Economia do Carnaval"  e Diretor da Federação Nacional das Escolas de Samba (FENASAMBA)