2.11.17

DIA DE LOS MUERTOS E AXEXÊS: FESTAS DA MORTE

LUIZ ANTONIO SIMAS -


Para os astecas, a morte está na origem da possibilidade de vida. O mito da criação mais conhecido diz que quatro mundos existiram antes do atual. Cada um terminou de forma violenta, mas os seres vivos sempre têm evoluído. Na primeira criação os seres humanos foram feitos de cinza. Na segunda, eram frágeis, caiam e nunca mais se levantavam. Na terceira, foram transformados em aves. Na quarta, viraram macacos.

Depois da quarta criação, o deus Quetzalcóatl criou os humanos como somos hoje. Com a ajuda de abelhas conseguiu roubar os ossos de gerações passadas, guardados no País dos Mortos por Mictlantecuhtli (o venerável Senhor dos Mortos). Auxiliado por Quilaztli, a deusa da fertilidade e da maternidade, Quetzalcóatl triturou os ossos e os colocou em uma taça. Feito isso, os banhou com o sangue de partes do seu corpo e do de Quilaztli: nasceram assim Oxomoco e Cipactónal, os primeiros homem e mulher. Para alimentá-los, o deus recorreu aos conhecimentos da formiga negra, que sabia onde havia a comida que faria a humanidade prosperar: o milho.

Mictlantecuhtli ficou irritadíssimo com os ossos que foram roubados da morte para possibilitar a vida. Só se acalmou quando Quetzalcóatl garantiu que os ossos dos humanos sempre seriam restituídos ao reino dos mortos. Para que os humanos não ficassem inconformados com a devolução dos seus ossos, Mictecacihuatl, a deusa, prometeu: aqueles que devolveram os ossos serão para sempre festejados com alegria.*

O grande carnaval mexicano do "Dia de los muertos" tem origem em ritos funerários dos astecas. Diz a tradição, bebendo na fonte do mito acima exposto, que o furdunço do dia de finados mexicano é comandado pela deusa Mictecacihuatl, esposa de Mictlantecuhtli, o senhor do reino dos mortos. A circulação entre informações culturais fez com que a figura da deusa indígena fosse aproximada à La Catrina, uma dama defunta da alta sociedade que - em forma de esqueleto e sempre bem vestida - comanda a farra. La Catrina teve a imagem popularizada no século XIX pelas gravuras do artista plástico José Guadalupe Posada.

Os mexicanos acreditam que os mortos visitam seus parentes no segundo dia de novembro para se divertir e não querem saber de melancolia. Se prevalecer a tristeza, os finados ficam furiosos. A ordem é comer, beber, cantar, dançar e o escambau. As crianças se esbaldam com caveirinhas de açúcar e chocolates em forma de caixão, enfeitados com fitinhas roxas.

O mito da morte como propiciadora da vida, fundamento da visão dos astecas, também se apresenta entre os iorubás de forma belíssima. Olodumare, o deus maior, um dia deu a Obatalá a tarefa da criação dos humanos, para que eles povoassem a terra. Obatalá moldou os seres a partir do barro. Para isso, pediu a autorização de Nanã, a senhora que tomava conta da lama. Os seres humanos, depois de moldados, recebiam o emi - sopro da vida - e vinham para a terra. Aqui viviam, amavam, tinham filhos, plantavam, se divertiam e cultuavam as divindades.

Um dia, o barro do qual Obatalá moldava os seres foi acabando. Olodumare convocou os orixás para que eles apresentassem uma alternativa para o caso. Como ninguém encontrou uma solução, e diante do risco da interrupção do processo de criação, Olodumare determinou que se estabelecesse um ciclo. Depois de certo tempo vivendo, os seres deveriam ser desfeitos, retornando à matéria original, para que novas pessoas pudessem, com parte da matéria restituída, ser moldadas.

Resolvido o dilema, restava saber de quem seria a função de tirar o sopro da vida e conduzir as pessoas de volta ao todo primordial - tarefa necessária para que outras viessem ao mundo.

Obatalá esquivou-se da tarefa. Vários orixás argumentaram que seria difícil reconduzir os homens e mulheres ao barro original, privando-os do convívio com a família, os amigos e a comunidade. Foi então que Iku, até ali calado, ofereceu-se para cumprir a tarefa. Olodumare abençoou Iku. A partir daquele momento, com a aquiescência de Olodumare, Iku tornava-se imprescindível para que se mantivesse o ciclo da criação.

Desde então, Iku vem todos os dias ao mundo para escolher os homens e mulheres que devem ser reconduzidos ao invisível. Seus corpos devem ser desfeitos e o sopro vital retirado para que, com aquela matéria, outros seres possam ser feitos - condição imposta para a renovação da existência.

Ao ver a restituição das mulheres e dos homens ao barro, Nanã chora. Suas lágrimas amolecem a matéria-prima e facilitam a tarefa da moldagem de outras pessoas.

Iku é o único orixá que tem a honra de baixar na cabeça de todas as pessoas que um dia passaram pela terra. É por isso que no axexê, o ritual fúnebre que celebra, prepara e comemora a volta das mulheres e dos homens ao todo primordial, prestam-se homenagens a ele, com cantos de júbilo e louvação.

Os iorubás reafirmam no mito de Iku o mistério maior que os astecas também celebraram: a beleza da morte como viabilidade, pela restituição dos seres ao todo primordial, da grande festa da vida. (via facebook)

* Sugiro a leitura do excepcional "Los antiguos mexicanos através de sus crónicas y cantares", de Miguel Leon-Portilla.