9.3.18

PACHECO DA MACONHA

ANDRÉ BARROS -


Em 2015, chegou no desfile do bloco Planta na Mente, na quarta-feira de brasas, um maconheiro de estatura mediana, com enorme barba bem aparada, óculos sinistros, de boné, calça comprida e camisa de botão listrada, aparentando mais que seus 47 anos à época. Muito simpático e risonho, estava visivelmente encantado com a maconheirada que tomava a rua dos Inválidos em direção à Tiradentes. Era um cidadão do mundo, que conhecia o Brasil de ponta à ponta e países do exterior. Tinha viajado muitas vezes para a Holanda e trazia a representação de um conhecido Coffee Shop de Amsterdam.

Depois de rodar o mundo, o ativismo canábico fez aquele carioca se estabelecer novamente no Rio de Janeiro. No mesmo ano, em maio, foi à Marcha da Maconha. Já no ano seguinte, chegou no Planta na Mente com milhares de abanadores de papel com formato de mãos verdes de maconha. Aquelas lindas alegorias fizeram grande sucesso e embelezaram mais ainda o desfile do bloco naquele ano.

Aquele coroa, mais novo do que eu, caiu de cabeça na minha campanha para vereador em 2016. Fizemos muitos vídeos seríssimos e ao mesmo tempo bem humorados, que chegaram a render alguns procedimentos por apologia à maconha, que não foram adiante na Justiça Eleitoral. A campanha teve grande repercussão, mas perdemos a eleição. Nem consegui ficar muito chateado, porque o Pacheco ficou tão triste que tive de consolá-lo.

Desde então, o já lendário Pacheco começou a circular em todo o ativismo canábico. Conheceu todos os nossos novos coffee shops, caminhava pela cidade visitando um por um. Parecia um antigo militante e já ajudava na direção dos caminhões da Marcha da Maconha e do Planta na Mente. Adorava as sedas e frequentava todos os seus lançamentos. Como exímio internauta, navegava por todos os sites canábicos, não só não perdia nenhuma, como ainda ajudava diretamente na organização das feiras da cultura maconheira. Zanon, um dos tantos irmãos que Pacheco ganhou em tão pouco tempo na luta pela legalização da maconha, fez uma linda marca para ele, que virou desberlotador, acessório para enrolar fumo que tanto o fascinava. De tanto que já era uma lenda, Dona Marta, minha companheira e revisora de meus textos, chegou a se fantasiar de Pacheco no desfile do Planta na Mente em 2017.

Pacheco resolveu voltar totalmente às suas raízes. Nascido e criado no Jacaré, concluiu recentemente um curso de Agente Comunitário na Fundação Oswaldo Cruz e desenvolveu um trabalho sobre acesso à informação dos direitos à saúde. Foi colocar em prática seu estudo na favela do Jacarezinho, lugar que ele tanto amava. Começou a trabalhar na Stuffa, um pequeno e lindo Coffee Shop, localizado no coração da comunidade. Quando a polícia entrava, os comerciantes fechavam as portas, mas o Pacheco não. A Stuffa ficava aberta em meio às operações policiais. Pacheco fez da Stuffa sua casa e dos donos, trabalhadores e fregueses, sua família. A Marcha das Favelas pela Legalização tornou-se uma de suas principais missões. Além de tudo, estava lançando a distribuidora de sedas, revistas e dichavadores “Pacheco Pacheco Pacheco”.

No auge dessa felicidade, nosso irmão Pacheco fez a passagem no dia 2 de março às 23:50 horas. Vários amigos se cotizaram e fizemos uma linda homenagem no seu sepultamento no cemitério São João Batista. Perdemos uma lenda da maconha, que agora se tornou imortal para a nossa causa. Gratidão meu irmão, um abraço bem apertado, vai com Jah!