8.4.18

O AMBIENTE POLÍTICO QUANDO LULA BROTOU DAS ENTRANHAS DA DITADURA MILITAR

JOSÉ CARLOS DE ASSIS -

Lula e Marisa Letícia, deixam o prédio da 2ª Auditoria da Justiça Militar, 1981.
Eu era subeditor de Economia do glorioso “Jornal do Brasil” no ano de 1978. Paulo Henrique Amorim, que havia vindo de São Paulo com importantes contatos com o empresariado “progressista” local, era o meu editor. Politicamente, vivíamos o tempo de “abertura lenta, gradual e segura” do general-presidente Ernesto Geisel. Por essa fresta, Paulo Henrique introduziu o debate político na economia, transformando-a em economia política. Os empresários insistiam num mantra: queriam “diálogo” com o Governo da ditadura.

Paulo Henrique ajudou a atendê-los. Abriu espaço para eles no noticiário e na página de opinião do  jornal. Mas havia um problema. Por um critério de equilíbrio político de um jornal que se queria realmente progressista, era preciso contrapor à opinião dos empresários a opinião dos trabalhadores. Numa feira da indústria, no Recreio, no Rio, Cláudio Bardella, um dos progressistas, afirmou que o empresariado aceitaria perfeitamente a legalização do Partido Comunista. Geisel foi visitar seu stand, sinalizando que não estava escandalizado.

Foi nesse ambiente que explodiram as greves do ABC. Paulo Henrique me incumbiu de editá-las, reunindo matérias oriundas de várias partes do país, na medida em que o movimento se alastrava para além de São Bernardo. Mantivemos um ritmo de duas páginas de cobertura de greve por dia. Nosso concorrente direto, O Globo, praticamente ignorava o assunto. Mesmo a imprensa paulista, dominada pelo Estadão – na época a Folha era irrelevante -, resistiu a dar uma cobertura digna à greve. Nós mantivemos o ritmo.

Terminados  os quarenta dias de greve, Paulo Henrique me enviou a São Paulo para conhecer Lula. Sem obrigação de fazer matéria, apenas para entender aquele fenômeno que havia irrompido por dentro das entranhas da ditadura e se tornado, de forma quase imediata, um grande líder nacional dos trabalhadores e dos pobres. Passei um dia inteiro no Sindicato de São Bernardo, conversando com ele. Vi-me diante  de uma personalidade fascinante, segura, com um discurso acima de ideologias, colado estritamente aos interesses práticos de sua classe.

O que me disse ali, mais de 30 anos atrás, prevalece ainda hoje na maioria de seus discursos. Dizia-se, então, que as greves tinham sido espontâneas, obviamente para diminuir o papel de lideranças na sua condução. Lula me disse que levaram dois anos de preparação, considerando a estratégia, na indústria, de parar a ferramentaria, a qual, uma vez parada, parava o resto. Não gostava de negociar com estatais porque o Governo desmontava os acordos;  já a empresa privada brasileira estava numa posição intermediária, enquanto o melhor interlocutor era a empresa privada estrangeira. Isso não era ideologia, era prática.

Um fato curioso que contou dava a dimensão de sua liderança e de sua credibilidade em ambos  os lados do processo. No curso das greves de 78, animados pelo que acontecia em São Bernardo, muitos trabalhadores de outras empresas também entraram em greve, embora sem muita disciplina. Os donos, então, convocavam Lula para conduzir as negociações. Ele fez isso. Os trabalhadores queriam aumento de 20%. Ele negociou com o dono, um alemão, e ficou acertado que o aumento sairia nessa escala. Uma semana depois os trabalhadores entraram em greve de novo. Queriam mais 20%. Lula os demoveu do intento, explicando que não poderiam rasgar o acordo feito antes.

Não é difícil reconhecer um gênio carismático. É só falar com ele ou ouvi-lo. Hoje, todo mundo sabe disso em relação a Lula. Na origem do fenômeno tudo era surpresa. A classe dominante o aceitava de alguma forma porque não via no seu discurso qualquer ameaça a seu poder real. Parte da esquerda o rejeitava, justamente porque lhe faltava a marca ideológica da luta de classes. Entretanto, na base de conquistas materiais, Lula foi conquistando a imensa maioria dos trabalhadores, e forçando a unidade em torno de um programa progressista sem radicalismos, ganho por insistência.

Nos estamentos dominantes da sociedade, os militares foram os últimos a acatar Lula como um líder político aceitável. Tendo sido um dos governantes que mais investimentos destinou ao equipamento das Forças Armadas, sucateadas por Fernando Henrique, não evitou que respingasse nele o inconformismo injustificado com a Comissão da Verdade que apurou os crimes da ditadura militar. Porém, mais do que prometeu como candidato, foi no exercício do poder que Lula conseguiu seus mais poderosos inimigos: a banca e os Estados Unidos. A banca, porque era uma ameaça latente aos juros estratosféricos. Aos EUA, porque ousou fazer um princípio de unidade sul-americana independente deles e, maior ofensa ainda, ajudou na construção dos BRICS, sinalizando uma aproximação com China e Rússia.