15.5.18

VOTO EM LULA, MAS APENAS SE FOR UM VOTO PARA VALER

JOSÉ CARLOS DE ASSIS -


Se Lula conseguir registrar sua candidatura votarei como um dever de honra para limpar a política brasileira de uma das páginas mais negras de sua história. Somente um idiota completo suporia que Lula sujaria sua biografia com a recepção de um apartamento de segunda categoria em São Paulo. Apesar do esforço sem precedentes, Moro e seus escoteiros da Procuradoria da República não conseguiram provar nem a doação do apartamento, nem a contrapartida da doação. A condenação foi um ato político aviltante ante a Nação estupefata.

Mas tudo leva a crer que Lula não conseguirá registrar sua candidatura. Houve um golpe, e esse golpe dentro de uma suposta legalidade juntou e ainda junta Executivo, Legislativo, Judiciário, Procuradoria da República, Polícia Federa. É um conluio sem precedentes na História brasileira. A terminologia de Moro e de seus agentes do poder judiciário fala em “organizações criminosas” dos políticos. Qual é o nome que daríamos a esse conluio infame se o poder, pelas artes do destino, mudasse de lado?

Sou um realista. Não acho que o poder político formidável que se juntou contra Lula, contando com a esmagadora colaboração da grande mídia, venha a parar de repente seu curso e dizer: “tome, Lula, desculpe. Foi um exagero nosso. Candidate-se e tome de volta o poder presidencial!” Os advogados do ex-presidente devem estar ganhando um bom dinheiro para alimentar essa ilusão. Da minha parte, estou velho demais para acreditar apenas na sorte. Se Lula quiser lavar sua honra, eleja um sucessor que o declare solenemente inocente.

O caso Dreyfus, um episódio de erro da Justiça Militar na França que repercutiu em toda a Europa na virada do século XIX para o século XX, só foi reparado dez anos depois da condenação pela força da pena de Émile Zola, com seu “Eu acuso!” Assim mesmo, a despeito das provas de inocência, não houve reparação completa. Dreyfus não recebeu as promoções que lhe eram devidas. Quanto a Lula, é melhor que não se iluda com uma promoção imediata à Presidência. Ele tem idade para esperar por um intermediário.

Podem tirar de Lula a liberdade e a oportunidade de concorrer à Presidência, mas não podem tirar dele mais de 60% de intenções de voto no segundo turno. O PT, que ao insistir na candidatura inviável parece jogar com a hipótese de se beneficiar dos votos do líder preso, está queimando o único capital político capaz de mover individualmente a sucessão no interesse do país. Imaginem se Dreyfus fosse capaz de eleger o presidente da França mesmo preso: jogaria intenções de votos na lixeira a fim de simplesmente marcar posição eleitoral?

O PT poderia desistir da candidatura inviável de Lula optando por um candidato de suas próprias fileiras. Acontece que esse candidato, ao que se observa, não existe. Tanto Wagner quanto Haddad não convencem sequer dentro do próprio partido. Por outro lado, a força eleitoral de Lula é grande, mas não infinita. Vide Haddad em São Paulo. Um pouco de astúcia, ao estilo Maquiavel, orientaria Lula a apoiar um candidato em outro partido que não o PT, porém aliado a ele. Não para marcar posição, mas para ganhar, favorecendo inclusive a limpeza do Congresso. Não chamo isso de plano B. É o plano óbvio. Depende apenas de que se reconheça que há mais coisa entre o céu e a terra do que imagina a vã filosofia dos petistas.