28.8.18

A DEFICIÊNCIA DO CONHECIMENTO ECONÔMICO DOS DIRIGENTES POLÍTICOS

JOSÉ CARLOS DE ASSIS -


O fato de eu ser economista eventualmente me inibe de afirmar que considero essencial num Presidente da República um conhecimento razoável de economia política. Isso foi menos importante no passado quando as relações econômicas internas e externas encontravam-se num nível baixo de complexidade. Não é mais o caso. Hoje a ignorância específica em questões econômicas por parte dos dirigentes de uma nação podem levá-la ao desastre a despeito de sua melhor boa vontade em outras questões de governo.

O desastre da Europa do euro, conduzida pela Alemanha a um estado de escravização institucional, se deveu essencialmente ao fato de que os dirigentes europeus da época em que foi estabelecido o acordo da moeda única não entendiam nada de economia. Aceitaram uma relação monetária que dava e ainda dá aos alemães uma precedência em matéria de moeda desvalorizada e facilitadora de superávits comerciais, enquanto esse superávit garantia uma expansão monetária interna que assegurava o crescimento econômico contínuo enquanto os demais países naufragam em recessão.

Agora vejamos o Brasil. Foi a sorte, não o conhecimento econômico, que possibilitou a Lula dois bons períodos de governo, com o enfrentamento bem sucedido da crise mundial no primeiro. A grande iniciativa de governo, em 2009, foi o investimento pelo BNDES de 200 bilhões de reais nesse e no ano seguinte, garantindo a retomada da economia. Agora a estupidez do atual governo tenta reverter esse investimento. A ação em 2009 foi feita a conselho dos assessores de Barak Obama, eles próprios empenhados numa vigorosa política de retomada de investimentos públicos que durou todo o governo democrata.

É importante acentuar que, diferentemente de outros países, os Estados Unidos se dispensam de ter um presidente da República especializado em economia. Isso se deve à existência de uma forte base institucional em defesa de políticas econômicas progressistas. É o caso do mandato duplo do FED, o banco central do país, que tem como missão a defesa do emprego e de um adequado nível de oferta monetária para o funcionamento expansivo da economia, sempre em estreita articulação com o Tesouro Nacional, independentemente do Presidente.

Aqui tivemos candidatos da República defendendo o tal tripé da economia, uma idiotice neoliberal trazida do exterior como base para políticas econômicas ortodoxas. Além disso, desde Eugênio Goudin a Octávio Gouvêa de Bulhões, e daí aos tecnocratas da Fundação Getúlio Vargas e da PUC-Rio, a ortodoxia predomina no sistema de governo brasileiro e amarra os presidentes que não tem conhecimento primário de economia. Dilma achava que sabia e não sabia. De Temer nem se pode falar, é um analfabeto econômico.

Essas reflexões me vieram à mente quando assistia à entrevista de Ciro Gomes na tevê Globo nesta segunda-feira. Creio que poucos candidatos como ele se sairão tão bem das tentativas de sair das armadilha dos entrevistadores preparadas para encurralá-lo. Entretanto, as fraquezas de Ciro foram imperceptíveis, na medida em que os entrevistadores também eram ignorantes em economia. Com isso passaram ao largo da principal deficiência de proposta do entrevistado, aquela relacionada com o refinanciamento das dívidas do SPC.

Ciro acha que isso gera demanda. É um equívoco. Redução ou mesmo perdão de dívida não gera renda. Gera um alívio no patrimônio. A presunção de que gera renda é que o beneficiado faça imediatamente outra dívida, o que contraria o bom senso. Se o sujeito conseguiu reduzir a dívida é que deu alguma forma de garantia. Com qual garantia obteria uma nova renda para fazer uma nova dívida? O fato é que esse programa de redução de dívida de Ciro não gera demanda líquida e, portanto, não gera crescimento econômico.

Por algum motivo, Ciro não formula um programa keynesiano de retomada de crescimento, o único capaz de reverter a depressão em que nos encontramos. Suspeito a razão. Ele é muito ligado a Mangabeira Unguer, e Mangabeira, como bom ortodoxo de Harvard, não gosta de programas keynesianos. Na verdade, não há nada pior hoje, no mundo, do que a maioria das universidades norte-amerianas, Harvard à frente. Elas tem algo em comum: o domínio absoluto da ideologia neoliberal como recomendação de política. Ai do presidente que acreditar nisso.