25.8.18

POESIA: PALAVRIAGEM I

MARCELO MÁRIO DE MELO -



Às vezes o barco para
na crista da calmaria
que no silêncio arrepia
vulcão na água parada
gestando mil movimentos
retempera os sentimentos
revoando numa trança
desenvolvendo uma dança
puxando muito mais fios
navegando noutros rios
sempre olhando a estrela
pois nunca deixar de vê-la
é garantia de rumo
sal e seiva fio de prumo
da emboscada sofrida
cicatrizar a ferida
olhando novo horizonte
poesia fazendo ponte
costurando em fio de prata
cremando vivência ingrata
no fogo da deslembrança
a espiral que avança
deixando as cinzas pra trás
pois assim é que se faz
pra ter a mente sadia
tirando do dia a dia
mágoa e ressentimento
ajustando o pensamento
em filtro e decantação
chave segura na mão
sabendo abrir e fechar
nadar nas águas do mar
caminhar firme na terra
consertando onde se erra
contornando malefício
pois esse é o ofício
de quem quer viver melhor
sem vitrine e altar-mor
olhos na realidade
no espelho da verdade
construindo trilha certa
onde o sapato aperta
dando maior atenção
para tirar conclusão
e armar melhor o jogo
sem querer baixar o fogo
nem pôr água na fervura
dando asas à ternura
multiplicando os abraços
que são os melhores laços
de quem atravessa a vida
medida e desmedida
desafio sempre presente
para o ateu e o crente
pois o problema é comum
de todos de cada um
pedindo enfrentamento
no lugar e no momento
no mandato da existência
buscando a justa ciência
em furor e calmaria
no que vibra e anuncia.