17.9.18

MINHAS CONDIÇÕES PARA APOIAR MOURÃO

JOSÉ CARLOS DE ASSIS -


O segundo turno parece definido. Com seu destempero no Acre, Ciro Gomes traçou seu destino: nunca um palavrão mal aplicado, na hora e no lugar errados, pode provocar maior estrago numa campanha eleitoral. E olha que eu e os meus apostávamos nele. Não há outros competidores reais à vista senão Fernando Hadad e o general Mourão, que certamente substituirá Bolsonaro, sem condições de fazer campanha. Estou descartando Alkmin por absoluta incompetência eleitoral, como está sendo atestado pelas pesquisas de opinião.

Hadad e Mourão são uma bomba de tempo curto. Não tanto por Hadad mas pelo partido. Durante anos seguidos, desde o mensalão, a grande imprensa massacrou o PT invocando razões certas e erradas. Creio que poucos partidos políticos no mundo sofreram ataques tão vigorosos. Supõe-se, como conseqüência, que a opinião pública está em grande parte antipatizada com o PT. É verdade. Não obstante, Hadad e seu PT podem ganhar as eleições do general Mourão. Você refletiu exatamente qual seria o significado disso?

Estamos numa situação objetiva de derretimento de todas as instituições da República, e só o que faltava eram condições de convulsão social e até de guerra civil. A vitória do PT será interpretada como revanchismo, não o revanchismo político comum no jogo democrático, mas o revanchismo dos que assaltaram os cofres públicos e querem voltar. Sim, porque para grande parte da opinião pública a cúpula do PT é uma quadrilha de ladrões. E seriam esses caras que voltariam ao poder para tomar conta de novo do caixa da República?

Calma, não estou generalizando, não acredito que Lula seja ladrão, nem mesmo que toda a cúpula do PT seja. Estou falando da alma do povo que foi envenenada pela grande mídia. Não tomo partido, sou um economista político ou um filósofo político. A direção do PT comete um erro primário ao confundir uma militância bem organizada, a maior do Brasil, com maioria eleitoral. Embora deseje a vitória do Hadad, por ser muito mais preparado para o poder do que o general Mourão, curvo ao realismo de que o pior será vitorioso.

Vejamos agora a hipótese de vitória do Mourão. Pode ser um desastre em larga escala, pois não há ninguém pior preparado para o exercício do poder republicano do que um general acostumado às hierarquias da vida militar. Lembre-se que, em 64, Castello Branco cercou-se de civis extremamente talentosos e experientes, como Roberto Campos e Octávio Gouvêa de Bulhões. Além disso, na época, não havia a praga do neoliberalismo. Paulo Guedes é um principista da economia política, que caminha pela extrema direita, como Bolsonaro.

Voltando à hipótese de um governo militar sem ser militar, como seria o caso, não haveria com ele risco menor de convulsão social e degradação generalizada da própria sociedade. Diante disso, vou fazer o impensável – note, sou um filósofo político com liberdade de pensar, não um militante político. Vou estabelecer condições para que haja um pacto social e político mínimo sob uma eventual convocação do general Mourão, que para isso deveria chamar à mesa de negociação, inicialmente, seu adversário Fernando Hadad.

Eis as condições: 1) recuperar e expandir o Bolsa Família; 2) iniciar imediatamente um programa de pleno emprego com base em financiamentos fiscais deficitários (em recessão, não há risco de inflação); 3) anular as leis do governo Temer relativas à entrega do pré-sal às multinacionais; 4) preservar o setor elétrico de qualquer iniciativa de privatização; 5) preservar o domínio nacional sobre a água; 6) reestruturar a lei de reforma trabalhista; 7) preservar o sistema previdenciário admitindo apenas reformas indispensáveis para eliminar privilégios; 8) reduzir o imposto de renda na base da pirâmide e aumentar em cima; 9) convocar uma constituinte com representatividade qualificada para evitar domínio de alguns setores sociais.

Para falar com franqueza, o PT teve oportunidades de fazer reformas desse tipo e não fez. Talvez o general Mourão encontre o caminho para isso no meio da maior crise econômica, social e política de nossa história. Como militar, ele tem limitações. Contudo, poderá encontrar, como Castello Branco, auxiliares competentes de direita que fizeram bons programas econômicos e sociais que poderiam ser classificados como de esquerda (na Previdência, na saúde, na infraestrutura). A sorte está lançada. Não há terceira referência.