15.9.18

SOBRE SAMBAS DE ENREDO

LUIZ ANTONIO SIMAS -

Deixo uma pergunta (que não se refere especificamente a uma escola; diz respeito a todas as agremiações) pra turma que gosta de samba de enredo: existem alternativas para driblar a ciranda de investimentos altíssimos nas disputas, com alegorias e adereços nas quadras, palcos caros, torcidas de aluguel, clipes roteirizados, mobilização de robôs nas redes, coreografias de torcidas, etc, que não seja o samba encomendado?

Braguinha desfilou numa alegoria da Mangueira em 1984, ano de inauguração do Sambódromo. (Reprodução)
O samba encomendado não me parece causa de crise. Ele é o remédio errado pra tratar a causa da doença e simplesmente pode matar o doente. A loucura que se tornou uma disputa de samba, hoje muito mais geradora de tensões que de sociabilidade entre membros de uma agremiação, chegou a um ponto insustentável.

Vejo compositores percebendo que isso é insustentável, mas há um setor produtivo da economia do carnaval que transita em torno das disputas e é cada vez mais forte. Até que ponto as disputas são decididas pela qualidade e adequação dos sambas ao enredo ou pela estrutura de disputa das parcerias e poder de cooptação de segmentos da escola? Existe mediação entre os dois fatores? Um ótimo samba que não tem conexões fortes com essa cadeia produtiva das disputas tem alguma chance de ser escolhido numa escola de ponta?

As grandes escolas de samba do Rio de Janeiro foram fundadas por compositores. A ala de compositores era o setor pensante, orgânico, das escolas de samba cariocas. Hoje, vamos admitir, ala de compositores já era. Como grupo que se reunia para pensar o Carnaval, articular instâncias de sociabilidades cotidianas na agremiação, compor e difundir sambas de terreiro, articular as ligações entre os mais jovens e os mais velhos das escolas a partir das noções de hierarquia e ancestralidade, servir como depositária da memória sonora da agremiação e do próprio Carnaval carioca (era basicamente isso que constava dos estatutos das alas nos tempos idos), as alas morreram.

O que temos hoje são alas mobilizadas quase exclusivamente pelo desejo de ganhar sambas de enredo - mesmo que os escolhidos não sejam os melhores para a escola - e em que o prestígio de seus membros se estabelece mais na capacidade de aglutinar parcerias capazes de viabilizar os custos financeiros e cooptar apoios políticos dentro das agremiações para uma disputa.

Refundar as alas de compositores, formar novos talentos, democratizar a disputa barateando custos, escolher critérios adequados para a escolha do samba, deveria ser uma preocupação de todos aqueles que consideram as escolas de samba como instituições culturais de vanguarda e manutenção dinâmica das tradições do samba.

Acusar os sambas encomendados - solução que não me agrada e em última análise é o tiro de misericórdia no moribundo - é rigorosamente necessário, mas periga tangenciar algo muito sério: a cadeia de saberes e transmissão de conhecimento comunitário e a sofisticação artesanal que gerou o gênero musical que embala as escolas de samba está nas últimas. (via facebook)