8.9.18

UM MORTO-VIVO SUSTENTANDO UM VIVO NA CAMPANHA

JOSÉ CARLOS DE ASSIS -


É possível que Jair Bolsonaro não sobreviva ao atentado, de acordo com a opinião que me foi pessoalmente transmitida por um médico eminente de Brasília. Exceto pelo impacto que isso terá na sua roda de amigos e de familiares, infelizmente não se pode dizer que o país perderá muito com sua morte provável, ou com sua retirada certa da campanha na condição de doente. Os mais antigos de nós já viram isso: a morte angustiante de Tancredo Neves, um homem de conciliação. Bolsonaro não é um homem de conciliação; é um homem do conflito. Simplifica todas as questões na base do positivo e do negativo, e brinca com a palavra matar.

Eu seria um hipócrita caso agora, depois dos muitos artigos que escrevi advertindo aos leitores sobre o caráter nazista de Bolsonaro, e diante do atentado que certamente é deplorável numa democracia, fosse transformá-lo em um messias tupiniquim. Esse papel cabe à Globo. Ela está transformando o ferido num grande herói nacional. O nível de irresponsabilidade da emissora dos Marinho é infinito, só comparável a sua arrogância. Ao transformar Bolsonaro num messias, deve-se perguntar imediatamente: o que vem depois?

Se vier a morrer, há duas probabilidades. Primeiro, dado seu caráter nepotista, pode recomendar o filho como candidato. Na outra hipótese, sai candidato o vice dele, general Mourão. Há situação pior? O Mourão fala como um nazista. Ou seja, haveria qualquer hipótese, inclusive a da morte, que removesse do caminho da República ele ou alguém igual a ele? No seu exercício de exaltação do candidato doente, a Globo deveria ter o mínimo de consideração com o povo, já que a hipótese mais provável é que tenhamos um morto-vivo na campanha presidencial sustentando um vivo pior do que ele. Em síntese, nem pela morte nos livraremos de Bolsonaro. Talvez seja melhor deixá-lo viver tornado bom pela morte iminente.