3.12.18

INIMIGO DO AMIGO-OCULTO

LUIZ ANTONIO SIMAS -

Crônica natalina publicada no livro "Coisas Nossas". O livro, aliás, cai bem como presente de amigo-oculto. Fica a dica.


O ritual do amigo-oculto, tradicional na troca de presentes do ciclo do Natal, tem origem incerta. Há quem fale em rituais nórdicos; há quem encontre as origens da troca de presentes na Grécia Antiga. Meu avô, nordestino militante, insistia na ideia de que o amigo-oculto era uma invenção do bando de Lampião, o Rei do Cangaço. O velho nunca explicou sua estranha teoria, apenas dizia que os cangaceiros comemoravam o ritual da troca de presentes dançando xaxado e trocando tiros com a volante.

Parece que a prática se popularizou nos Estados Unidos, durante a Grande Depressão da década de 1930. Depois da quebra da bolsa de Nova York, em 1929, a pindaíba impedia que o cidadão comprasse presentes para a família toda. Com o ritual do amigo-oculto, bastava comprar apenas uma lembrancinha, o que aliviava o bolso naquele momento difícil, em que o sujeito perigava ter que latir no quintal para economizar até o cachorro.

Eu confesso que tenho horror ao ritual. Acho que é trauma da ocasião em que presenteei o amigo com um tênis caro pra chuchu e ganhei de volta uma caneca em que estava escrito "Estive em São Lourenço e lembrei de você".

O ritual do amigo-oculto também inviabiliza a ida com tranquilidade a bares e restaurantes no fim do ano. O perigo é encontrar a festa do pessoal da repartição. Em meia hora os bebuns amadores — os pinguços de festas de fim de ano são sempre amadores — chamam urubu de meu louro e começam a gritar. A funcionária padrão, normalmente recatada, solta a franga, enche a cara e ameaça fazer striptease, ao som do funk da moda. O chefe carrancudo se revela um baiano em potencial e começa a fazer coreografias do carnaval em Salvador.

No ápice do fuzuê começa o amigo-oculto. Não satisfeitos com a troca de presentes em público, os participantes ficam, aos berros, dando palpites sobre quem fulaninho tirou. Nessa época, portanto, é melhor pedir a comida em casa. O pior é que não há como fugir do ritual. O sujeito jura que nunca mais entrará em amigo oculto; vai romper com o consumismo e os cacetes. Balela. Tem sempre pelo menos um amigo oculto de família cuja participação é irrecusável. Para esculhambar mais ainda, só mesmo a cena clássica do parente agregador; aquele que insiste em transformar a troca de presentes em um ritual descontraído. O parente agregador é a maior praga do ciclo da natividade.

Com este texto espero estar mandando um recado elegante aos leitores, amigos, colegas de trabalho e familiares: façam o amigo-oculto, mas não me chamem. (via facebook)