4.1.19

PAIRANDO SOBRE O DESENCANTO

LUIZ ANTONIO SIMAS -

Quando finalmente proibirem os meus deuses, os meus porres e os meus amores corriqueiros, além de matarem a minha profissão de ensinar aprendendo, sei como agir. Farei um estoque de velas de sete dias e com elas tentarei reconhecer, com um fiapo de luz que me guiará nos escuros, a minha turma. Buscarei os que batem cabeça nos gongás, sabem das gumas e catimbozeiam fuzuês nas tabocas severinas, alumiando o breu para que algum mestre do babaçuê beba a jurema no coco e me fale de outro mundo.

Carnavais. Inspirado em Volpi: Carnaval infantil em Cananéia
Contra a supremacia dos ternos e roupas de grife, haverá gente capaz de vestir o mistério com manto do Divino, a máscara de Momo e o filá de Obaluaiê. Malocados nas roças escondidas, acharei no fundo de algum armário os brincos de Tóia Jarina, o cocar do bugre, um quepe de marujada, o linho S-120 dos pilintras, camisas de times de várzea, gibões de couro e saiotes femininos, feitos com as folhas da jussara e enfeitados com miçangas coloridas. Eles estarão ali para adornar os corpos que insistirão em dançar livremente.

Só os corpos entendidos como assentamentos animados, gongás feitos de sangue, músculos e ossos, carregados de pulsão da vida, poderão sobreviver. Nós estamos perdendo e meu estoque de velas está preparado para o segundo tempo. Resta agir e apostar que nas frestas, entre as torres empresariais e arenas multiuso, os couros percurtidos continuarão cantando, mesmo proibidos, a vitória da vida sobre a morte no terreiro grande.

Pairando sobre o desencanto, estejamos atentos para escutar no vento a gargalhada zombeteira dos exus no bumbo do Zé Pereira. Os desencantadores não sabem reconhecê-la e morrem de medo das sonoridades que os desafiam. Ela é, também por isso, o nosso “uni-vos” mais que necessário. (via Facebook)