21.3.19

ENCANTARIA

LUIZ ANTONIO SIMAS -

Reproduzo um verbete de um trabalho em andamento.


Defino a encantaria como a encruzilhada de um conjunto de ritos fundamentados na crença em caboclos encantados e encantadas, a partir do amálgama que envolve pajelanças, ritos ancestrais, a tradição mística do cristianismo ibérico, a herança mourisca que nos chega via Portugal, a divinização afro-ameríndia da natureza e que tais.

O encantado não é o espírito de um ser humano que morreu. Ele é o ser arrebatado, que superou a morte e a vida como conceitos biológicos e passou a viver transformado em árvore, pedra, acidente geográfico, planta, vento, areia, flor, pássaro. Sem deixar de ser ele mesmo e aquilo em que se transformou, o encantado interage ritualisticamente com os viventes através do transe (a capacidade de transitar entre o visível e o invisível).

Ao contrário do catimbó, na encantaria o termo caboclo não é sinônimo de entidade ameríndia, podendo ser genericamente utilizado para designar entidades de variadas origens. Os caboclos encantados, portanto, se reúnem em famílias, com um chefe e suas linhagens, que abrangem turcas, índios, reis, descendentes de africanos, nobres, marujos, princesas, etc.

Exemplifico abaixo:

FAMÍLIA DO LENÇOL: A família mais famosa de encantados. No fundo do mar da praia dos Lençois - em Curupupu (Maranhão) - mora o Rei Dom Sebastião, que encantou-se durante a batalha de Alcácer-Quibir. Essa família é formada apenas por reis e fidalgos. A vinda do Rei Dom Sebastião ao corpo de uma sacerdotisa é rara, alguns afirmam que ocorre de sete em sete anos. Da família fazem parte ainda, dentre outros, Dom Luís, o Rei de França; Dom Manoel, conhecido como o Rei dos Mestres; a Rainha Bárbara Soeira; Dom Carlos, filho de Dom Luís, e o Barão de Guaré. Em alguns ramos da encantaria fala-se na FAMÍLIA DA GAMA , que também seria formada por reis, rainhas e fidalgos.

FAMÍLIA DA TURQUIA: É chefiada por um rei mouro, Dom João de Barabaia, que lutou contra os cristãos no tempo das cruzadas. É a esta família que pertencem as irmãs Mariana, Jarina e Herondina, as princesas que vêm ao mundo não apenas na forma de turcas, mas também como marinheiras, ciganas, índias ou aves de belas plumagens. Em algumas casas, a Família da Turquia é incorporada à Família do Lençol.

FAMÍLIA DA BAHIA: Família de encantados farristas, que gostam de beber e festejar e têm a sexualidade aflorada. Vivem arrebatados em mundanidades, como em esquinas, bares, rodas de samba e capoeiras.

FAMÍLIA SURRUPIRA: Família composta por índios que não foram catequizados; versados nos segredos da pajelança. Trabalham com as artes da cura e são profundos conhecedores das plantas.

FAMÍLIA DA MATA: Também conhecida como "família de Codó", é formada por vaqueiros, boiadeiros, índios e pretos que saíram do litoral maranhense e forma arrebatados nas matas próximas à cidade de Codó.

FAMÍLIA DA BANDEIRA: Formada por desbravadores das matas, caçadores de onça, mateiros e pescadores que se encantaram durante suas atividades.

As cortes e famílias encantadas apresentam leituras de mundo fundamentadas na pluralidade de perspectivas existenciais aniquiladoras da morte. As distintas ramificações interagem, convivem nas mesmas gumas, partem da ideia do encante como aquilo que une as diferenças e define a possibilidade de humanidade: a capacidade do arrebatamento que nos faz, inclusive, supraviver como árvore, bicho, pedra de rio, ostra na lama, flor no deserto, areia do mar.

Para a encantaria somos humanos porque (o que seria um absurdo para o monorracionalismo ocidental) podemos ir além da condição humana e arvorecer humanamente em florações de fim de tarde.

Fonte: Facebook