7.4.19

QUE VENHA O ENCOBERTO!

LUIZ ANTONIO SIMAS -

Sou o que Fernando Pessoa definia como um "sebastianista racional". Espero a volta do rei desaparecido na solidão do deserto - retratado aqui por Cristóvão Moraes - que virou caboclo encantado nas praias do Maranhão, o touro negro coroado, desceu dos céus em Canudos e ergueu o estandarte português no nevoeiro das trovas do Bandarra. Esperamos o encantado não em virtude de qualquer crença, mas de sanidade diante da dor do mundo.


Defino a encantaria como a encruzilhada de um conjunto de ritos fundamentados na crença em caboclos encantados e encantadas, a partir do amálgama que envolve pajelanças, ritos ancestrais, a tradição mística do cristianismo ibérico, a herança mourisca que nos chega via Portugal, a divinização afro-ameríndia da natureza e que tais.

O encantado não é o espírito de um ser humano que morreu. Ele é o ser arrebatado, que superou a morte e a vida como conceitos biológicos e passou a viver transformado em árvore, pedra, acidente geográfico, planta, vento, areia, flor, pássaro. Sem deixar de ser ele mesmo e aquilo em que se transformou, o encantado interage ritualisticamente com os viventes através do transe (a capacidade de transitar entre o visível e o invisível).

A família mais famosa de encantados é a do Lençol. No fundo do mar da praia dos Lençois - em Curupupu (Maranhão) - mora o Rei Dom Sebastião, que encantou-se durante a batalha de Alcácer-Quibir. Essa família é formada apenas por reis e fidalgos. A vinda do Rei Dom Sebastião ao corpo de uma sacerdotisa é rara, alguns afirmam que ocorre de sete em sete anos. Da família fazem parte ainda, dentre outros, Dom Luís, o Rei de França; Dom Manoel, conhecido como o Rei dos Mestres; a Rainha Bárbara Soeira; Dom Carlos, filho de Dom Luís, e o Barão de Guaré.

Que venha o Encoberto!

Fonte: Facebook