27.5.19

A PEDAGOGIA DO DENDEZEIRO

LUIZ ANTONIO SIMAS -

Pequeno manifesto para os dias duros. Um texto de 2016 que me parece agora mais urgente.


O pessimismo na avaliação não me afasta do otimismo e da responsabilidade da ação. Precisamos praticar as potências criativas presentes na limitação e no precário, diante do suicídio do país. O desafio que nos está colocado é o da experiência de viver intensamente na morte. Já que morremos, como poderemos viver nessa condição? Eis a tarefa que me parece estar colocada.

Defendo, nesse limite, uma pedagogia do dendezeiro. Temos que temperar de axé essa bagaça brasileira. Mas que diabo é isso?

Quando falo do dendezeiro, me refiro a um poema de Ifá, a tradição oracular dos iorubás. Resumidamente, diz a versão mais conhecida do poema que o sábio Orunmilá, aborrecido com a vaidade e a sede de poder de alguns seus filhos, resolveu deixar a terra. Foi, entretanto, condescendente e disse que ainda daria aos filhos a chance de conversar com ele. E deixou dezesseis caroços de dendê, que deveriam ser consultados para que a sua palavra fosse conhecida. Esse é um dos caminhos que narram o nascimento da consulta oracular pelos ikins, os caroços de dendê.

Orunmilá deu uma lição aos filhos seduzidos por pompas e vaidades: o caroço de dendê é o que de mais simples e acessível existe. O dendezeiro nasce em qualquer lugar. Orunmilá atribui ao mais simples, ao corriqueiro, ao elemento presente em abundância no cotidiano, ao menos óbvio por ser rigorosamente comum; o segredo do conhecimento, a guarda do destino, o preceito dos ebós, o catálogo das folhas, o repertório dos cantos de encantamento, a sofisticação de todas as semânticas e gramáticas, e o mistério da prática do axé.

E o que defino como "axé" pedagogicamente praticado?

Entendo a pratica do axé como aquela que designa um modo de relacionamento com o real fundamentado na crença em uma energia vital - que reside em cada um, na coletividade, em objetos consagrados, alimentos, elementos da natureza, procedimentos rituais, na sacralização dos corpos pela dança, no diálogo dos corpos com o ritmo, etc. - que deve ser constantemente potencializada, ofertada, restituída e trocada/transformada para que não se disperse. E falo de um axé praticado que transcende os limites da prática religiosa dos terreiros.

Falo de potência, restituição, troca e transformação: caminhos da vida vital; aquela que subverte a morte enquanto condição do ser vivente que não consegue conciliar o caminho que o ori (a cabeça que escolhe o destino) quer trilhar com os descaminhos da vida desencantada. Digo isso porque estamos vivendo uma vida morta, de cadáveres adiados fadados ao aniquilamento; como o país. Neste ritmo ninguém haverá de contar as nossas histórias na porta da casa dos ancestrais.

Eu defendo uma educação de axé como experiência de transformação radical, prática mundana e, consequentemente, pedagógica contra o desencantamento do mundo. Urge a restituição da vivacidade a partir da aproximação cotidiana com táticas de frestas, franjas, brechas, fendas, síncopes, gingas, dribles, rumores, brisas constantes, gargalhadas na mata e artes de garrinchar o horror com a instabilidade sorrateira das pernas tortas, que ameaçam ir para um lado e caminham com a bola para o outro.

Urge defender o dendezeiro, atentar para o miúdo, encantar o trivial com a palavra, a política com a poética, resguardar a sanidade, proteger os corpos expostos, aprimorar afetos bordados na solidariedade das catacumbas, entender o cotidiano como instância educativa, fortalecer gramáticas não normativas e ousar o encanto como prática subversiva.

O caroço de dendê é a bala mais poderosa do tambor da nossa arma.

Fonte: Facebook